Apoio:
Curso gratuito. Basta clicar no título e, depois, em palavra do professor.


Login:

 
IMUNOLOGIA: SÃO PAULO, BOSTON, BOGOTÁ
 
Entrevistado:DRA. CLARISSA BRITO GRANJA
 

A dra. Clarissa do Brito Granja é especialista em reumatologia e em imunologia. Tem doutorado em imunologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Trabalhou em Boston no laboratório de Imunogenética do hospital Dana Farber Cancer Institute da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard. E atualmente é pesquisadora no Centro Colombiano de Investigações em Aqüicultura, CENIACUA.

Comportamento Humano (CH) – Seu trabalho na Colômbia, além da atividade na área médica fazendo diagnósticos de mutações, antígenos de histocompatibilidade etc., inclui uma pesquisa em andamento sobre uma infecção viral que mata os camarões de cultivo. Fale-nos a respeito.

Dra. Clarissa - Desde agosto de 2000 estou trabalhando com um grupo de pesquisadores no Centro Colombiano de Investigações em Aqüicultura, CENIACUA. Fui contratada porque este Centro queria ampliar as investigações em Imunologia, buscando encontrar alguma medida profilática ou terapêutica contra uma infecção viral que havia sido diagnosticada recentemente. A infecção causada pelo vírus da Mancha Branca mata 100% dos camarões de cultivo Litopenaeus vannamei num período máximo de oito dias. Esta doença foi descrita em 1992 na China, e a partir daí se disseminou por toda a Ásia, sul dos Estados Unidos, América do Sul e Central. Na Colômbia, a infecção apareceu somente nas fazendas da costa pacífica, causando enormes perdas econômicas, assim como aconteceu nos demais países. Na costa atlântica colombiana, o vírus foi diagnosticado por PCR (Reação em cadeia da Polimerasa), mas não houve manifestações clínicas nem mortalidades. Como as temperaturas do Atlântico são superiores as do Pacífico, iniciamos as investigações avaliando o efeito da temperatura nesses animais poiquilotérmicos, cuja temperatura corporal depende da temperatura do meio ambiente. Nosso primeiro resultado foi que o aquecimento da água impedia a mortalidade dos camarões infectados com o vírus da Mancha Branca. A partir daí, passamos a investigar os possíveis mecanismos envolvidos nesse efeito benéfico da hipertermia. Posteriormente, encontramos que estes camarões mantidos a 32oC tinham um número de células apoptóticas significativamente maior que os cultivados à temperatura ambiente (26oC). A quantificação das cargas virais, por PCR em tempo real, mostrou que a hipertermia reduz significativamente o numero de copias virais na hemolinfa dos camarões infectados. Juntos, estes resultados sugerem que a hipertermia facilita o processo apoptótico, responsável pela redução das cargas virais e, conseqüentemente, pela maior sobrevida desses camarões. Embora apoptose tenha sido descrita como um mecanismo anti-viral em outros invertebrados, nosso modelo experimental não exclui o efeito da hipertermia sobre a replicação viral. Atualmente estamos investigando a presença de caspasas ativas e a expressão diferencial de genes nos camarões mantidos nas duas temperaturas. Essa linha de investigação tem contribuído para a formação de vários alunos e ampliado, um pouquinho mais, o conhecimento sobre a imunidade inata do camarão. A partir do nosso trabalho, alguns pesquisadores australianos e americanos avaliaram o efeito da hipertermia em outros modelos de infecções virais de camarões e encontraram resultados semelhantes, o que fortalece ainda mais nossa hipótese inicial. Além destas atividades de pesquisa, dedico parte do meu tempo a um laboratório diagnóstico especializado em PCR. Neste laboratório, fazemos diagnósticos de mutações, antígenos de histocompatibilidade, diversas viroses, incluindo quantificação de cargas virais, etc. Essa é a parte da minha vida que ainda está ligada diretamente à medicina e é gratificante.

CH – Como foi sua experiência em Harvard?
Dra. Clarissa - Depois de terminar minha especialização em Reumatologia na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, eu fui trabalhar no laboratório de Imunogenética do hospital Dana Farber Cancer Institute da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard. Nos três primeiros anos, estive trabalhando com transdução de sinal de ativação em linfócitos T e nos três seguintes, com tipificação de antígenos de histocompatibilidade, por métodos de biologia molecular. Sem dúvida, estes foram os anos mais produtivos da minha vida profissional. O ambiente extremamente competitivo estimula qualquer pessoa a investigar, a pensar e a publicar. Existem mais verbas e é mais fácil obter o material necessário para os experimentos.

CH – Qual a diferença entre Harvard e as universidades brasileiras?
Dra. Clarissa - Acho que a grande diferença entre o ensino na Harvard e nas universidades brasileiras é o acesso à informação. Por exemplo, qualquer aluno pode participar dos seminários de Imunologia onde estão os grandes imunologistas sentados e disponíveis para discutir tuas dúvidas. As bibliotecas são maravilhosas, tu mesmo pegas a revista e fazes tua copia. Em resumo, o ambiente ideal para estudar e estudar. Por outro lado, a adaptação à vida americana é difícil. Apesar do grande número de estrangeiros nas universidades, os bostonianos são pouco receptivos. No trabalho tudo funciona perfeitamente, mas a nível pessoal existe um abismo cultural que impede uma maior aproximação. Acho que por esta razão, a maioria dos meus amigos era estrangeira ou filhos de imigrantes. Com todo o tempo que vivi em Boston, acabei adaptando-me e aproveitando todas as coisas boas que a cidade oferece. É maravilhoso conhecer os museus, ir a concertos e, estar a três horas de Nova Iorque, em carro.

CH – O que a fez, na época, decidir voltar ao Brasil?
Dra. Clarissa - Minha decisão de voltar ao Brasil foi baseada em uma série de fatos: (i) pesquisador não tem a menor estabilidade de emprego e eu já não queria voltar a ser médico, fazer provas para validar meu diploma, residência, etc. Um caminho já conhecido! (ii) meu chefe, Dr. Edmond Yunis, estava em idade de aposentar-se e (iii) meus pais estavam doentes. Nesse momento decidi voltar para São Paulo.

CH – E a decisão pelo doutorado na Universidade de São Paulo?
Dra. Clarissa - O retorno ao Brasil significava readaptação, e optei voltar a ser estudante. Um amigo neurologista do Hospital das Clínicas, Dr. Paulo Marchiori, sempre me disse: não adianta só publicar, os títulos são fundamentais para qualquer coisa que queiras fazer. Assim, voltei para o laboratório de Imunologia de Transplantes do Hospital do Coração, dirigido pelo Dr. Jorge Kalil, depois de ser selecionada para o Programa de Doutorado em Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Minha orientadora, a Dra. Verônica Coelho é reumatologista e dirige a linha de investigação em transplantes deste laboratório. Trabalhei no projeto de proteínas de choque térmico, investigando a resposta celular dirigida a elas, em pacientes com transplante renal. Esse trabalho foi recentemente publicado na revista Human Immunology. O doutorado requer muita dedicação, trabalho e estudo. No final, a sensação de haver crescido intelectual e profissionalmente é a grande recompensa.

CH – Sua permanente curiosidade científico teve início já na graduação?
Dra. Clarissa - A faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo foi o início de tudo. O incentivo dos bons professores e a necessidade de complementar os conhecimentos em algumas áreas foram os meus primeiros estímulos. Depois, o estágio na Nefrologia aumentou ainda mais minha curiosidade científica. Lembro com muito carinho dos Drs. Alaour Duarte e Jairo Caovilla, eles foram fundamentais!

CH – As boas experiências como médica no estrangeiro colaboram para que se sinta “cidadã do mundo”?
Dra. Clarissa - Todas as minhas mudanças tiveram um motivo comum; aprender mais. A vinda para Bogotá significava também uma ótima oportunidade de trabalho, incomparável às propostas que tive para ficar no Brasil. Assim, quando a “força motriz” é conhecida, o restante é só uma grande capacidade de adaptação. Sentir-me cidadã do mundo... não sei, continuo sendo gaúcha!

CH – E a medicina na Colômbia? Como estão funcionando suas faculdades?
Dra. Clarissa - Existem faculdades de Medicina com excelente qualidade de ensino, tanto em Bogotá como em outras cidades (Manizales, Medellin e Cali). Bogotá tem 10 faculdades de medicina e uns 7 milhões de habitantes.
O currículo é semelhante ao brasileiro e não tive nenhum problema em revalidar meu diploma aqui. Depois dos cinco anos com aulas, um ano de estagio, todos são obrigados a trabalhar por mais um ano para alguma entidade governamental ou que tenha apoio do governo (municipal, estadual ou federal). Eles chamam esse ano de Rural, e sem ele não podes obter o Registro Médico (nosso CRM) e, conseqüentemente, não podes exercer a profissão. A duração do Rural pode ser de seis meses, se o médico for para uma zona que tenha guerrilha. Depois do Rural eles fazem residência medica que tem a mesma duração das brasileiras. As boas universidades também oferecem cursos de Mestrado e Doutorado em diversas áreas. A maior parte destes trabalhos de investigação é realizada nas próprias universidades e financiada por Colciencias, o equivalente ao nosso CNPq.

CH – E quanto ao atendimento médico na Colômbia?
Dra. Clarissa – É muito parecido ao nosso. O INPS aqui se chama Seguro Social. A contribuição é obrigatória e o atendimento demorado. A grande maioria dos trabalhadores possuem, adicionalmente, um convênio médico que cobre um determinado número de doenças, etc. Alguns convênios são bons, outros nem tanto, como no Brasil.

CH - Como a vida lhe levou para a medicina e para a especialidade?
Dra. Clarissa - Acredito que fui estudar medicina porque meu pai era médico. Depois, o primeiro contato com a Reumatologia foi no estágio da Nefro, mas a opção foi bem mais tarde. Da Reumatologia para Imunologia foi uma transição gradual e o laboratório foi o principal motivo.