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BAIXA VISÃO AFETA 150 MILHÕES
 
Entrevistado:DRA. CARLA BANDEIRA
 

A dra. Carla Terezinha Corso Bandeira é médica oftalmologista, formada na Faculdade de Medicina da UPF em 1994 e especializada no Curso de Oftalmologia da Fundação Aristides de Athayde, Curitiba/PR. Trabalhando em Francisco Beltrão, sua área de atuação compreende o sudoeste do Paraná.
COMPORTAMENTO HUMANO (CH) – As pessoas buscam muitas informações sobre saúde e doença, inclusive procuram se familiarizar com a terminologia médica. Na área da oftalmo desejam saber o significado de uma série de conceitos. Por exemplo, o que é “baixa visão”?
DRA. CARLA BANDEIRA - Baixa visão é a visão menor de 3/10 até percepção de luz e um campo visual menor de 10 graus, com um remanescente visual que permita realizar algum tipo de tarefa. Definição da OMS,na Conferência de Bangkok/ 1992.
CH – É significativo o número de pessoas que sofre deste problema?
DRA. CARLA BANDEIRA - O índice de cegueira total nas populações vai de 0,3% a 1,5%, sendo que o índice de pessoas com baixa visão se considera de 2 a 7% da população total. Portanto, para cada pessoa cega existem 4 com visão subnormal. Existem, no mundo, 150 milhões de pessoas com baixa visão. Como principais causas de cegueira/ incapacidade visual temos: catarata(42%); doenças metabólicas e degenerativas(23%).
CH – Quais patologias são as causadoras de baixa visão?
DRA. CARLA BANDEIRA - Podemos agrupá-las em 5 grupos de acordo com o critério funcional. Não esquecendo que cada grupo exige um esquema diferente para a reabilitação:
Grupo I: patologias com escotoma central.Exemplo: toxoplasmose, maculopatias.
Grupo II: transtornos da motilidade ocular.Ex.: nistagmo.
Grupo III: patologias com perda do campo visual periférico (visão em túnel).
Ex.: glaucoma, atrofia de papila, albinismo.
Grupo IV: visão imprecisa.Ex.: miopia maligna, catarata, retinopatia diabética.
Grupo V: hemianopsias. Ex.: tumor occipital, temporal.
CH – Que conseqüências a baixa visão traz à pessoas?
DRA. CARLA BANDEIRA - Podemos considerar a pessoa com baixa visão, em termos gerais, como iguais às pessoas com visão normal. Entretanto, mudam a maneira e o nível de satisfação naqueles indivíduos, por isso a importância dos programas de reabilitação visual, pois com o auxílio de produtos óticos e programas que trabalham na psique do paciente, podemos atingí-lo, a ponto de torná-lo capaz para quase todas atividades sócio-laborais. Inclusive, existe uma lei (8.213/91 em seu artigo 93) que obriga as empresas a terem um percentual de portadores de deficiência em seu quadro. Mas, sómente para empresas com 100 funcionários ou mais. Por isso, frisei a importância da reabilitação, pois a possibilidade de reintegração alcança um patamar mais amplo. O impacto produzido pela perda visual repercute no índivíduo como um todo. Seja parcial ou total, a perda visual altera a vida deste indivíduo, influindo de sobremaneira no psiquismo. As reações não serão as mesmas em todas as pessoas, mas a sua adaptação segue padrões semelhantes a outros conflitos que podem surgir durante a vida. Um dos aspectos que surgem primeiramente é a perda de confiança, pois estamos acostumados a confiar quase que exclusivamente no sentido visual. Também outras perdas e limitações ocorrem em muitos campos da vida, tais como: sentimento de invalidez (pela integridade física agredida), limitações sociais( mobilidade, perdas na área educacional/ laboral, comunicação escrita, relação com o meio exterior) e outras como independência. Muitos estudiosos concordam a existência de uma sequência de estágios nestes indivíduos que se dariam desta maneira:
1- Trauma físico ou social;
2- Choque e negação;
3- Aflição e reclusão;
4- Desânimo e depressão;
5- Enfrentamento e mobilização;
6- Autoaceitação e auto-estima resgatada;
Estas fases podem estar sobrepostas, podem voltar posteriormente, e também devemos considerar que a duração e a intensidade variam conforme as pessoas.
CH – Como se procede a reabilitação visual?
DRA. CARLA BANDEIRA - O esquema para reabilitação visual nas pessoas com perda visual objetivam melhorar a qualidade de vida. Isso se faz com uma equipe multidisciplinar composta por oftalmologista, ótico, psicólogo, assistente social e professores de reabilitação visual. Através do uso de auxílios óticos e recursos psicopedagógicos, com propostas de autoaceitação, reconhecimento de seus valores e qualidades, aceitação dos direitos às diferenças, faz-se a retomada da pessoa como membro ativo, com capacidades de ajuda, participação e de tomada de decisões.
CH – Dra. Carla, a vocação pela medicina, como surgiu em sua vida?
DRA. CARLA BANDEIRA - A idéia de cursar medicina surgiu no 2. grau quando os cursos eram ditos "profissionalizantes". Pela primeira vez tive contato com a área biológica ao estudar no curso "técnico em patologia clínica". Também na mesma época, tinha um irmão cursando o quarto ano de medicina na FMUPF. Acredito que estes foram os dois pilares iniciais pelo interesse nas ciências biológicas. A partir destas influências a opção pela medicina foi o caminho natural. O curso de medicina mostrou-se envolvente e revelador para a questão vocacional, que esclareceu-se logo em seguida.
CH – E a opção pela Oftalmologia?
DRA. CARLA BANDEIRA - A oftalmologia veio no quinto ano, depois de analisar muitas especialidades. Esta especialidade apareceu congregando o sacerdócio da medicina com o lado prático da vida moderna, pois permite aliar a arte da medicina tradicional com o uso de novas tecnologias, sintonizando o que há de mais moderno na tecnologia médica, permitindo atualização, aprofundamento do aprendizado, melhoria da produtividade e principalmente da qualidade de vida de nossos pacientes. Depois de assistir algumas cirurgias de colegas oftalmologistas no centro cirúrgico do HSVP, conhecer o ambulatório de oftalmologia e observar a melhoria das condições visuais das pessoas, a escolha foi tornando-se cada vez mais clara. Não posso deixar de citar que, novamente a influência do meu irmão foi decisiva, pois naquela época ele era médico-residente do serviço de neurocirurgia do HSVP. A vida agitada da especialidade por ele exercida me fez repensar nas especialidades cuja vida é mais turbulenta. A oftalmologia evidenciava-se então como uma opção em que a vida era mais programada do que em outras especialidades médicas. Por fim, o bom é poder dizer que: "Gosto é de ser médico", pois a medicina sempre será arte, muito mais que ofício.
CH - Como está a medicina em Francisco Beltrão?
DRA. CARLA BANDEIRA - A medicina em Francisco Beltrão atravessa as mesmas dificuldades e alegrias que o atual modelo da medicina brasileira apresenta. Quero dizer dificuldades, pois ao mesmo tempo que a prática e os honorários médicos tem sua remuneração aviltada por um sistema de saúde afetado pela situação político-econômica do nosso país, poderia soar dissonante as alegrias de podermos compartilhar resultados excelentes com nossos pacientes, apesar de estarmos distantes de grandes centros. Apesar das dificuldades, muitas vezes da má-remuneração, outras vezes de ordem técnica pela falta de equipamentos, o amor à prática médica, as facilidades da informatização, através da internet, e a globalização não nos distanciam da reeducação continuada e possibilitam a renovação constante de nossos conhecimentos, propiciando mesmo assim condições de melhoria da qualidade de vida aos nossos pacientes, um de nossos maiores objetivos como médicos.